Diante todo aquele sentimento óbvio e previsível ele sentiu o vômito em sua goela. Golfou quase que literalmente só de pensar em depressão por mortes de filhos, por desespero a doenças mentais, por medo diante a estupro.
- Consegue ser mais desprezível do que esse bolo de realidade mal escrita? Quando você morre, suas tripas vão ser comida de vermes. Seu corpo é um monte de carne e tripas que não servem de nada. Vá em uma montanha bem alta e longe da cidade. Lá não tem ninguém, você está sozinho em frente aquela imensidão e descobre que não é nada, mas aquilo não é nada perto de outros planetas. Na verdade você é um bolo de merda, absolutamente inútil. Essa é a única verdade. De que vale todo o resto de realidade que você me diz, se fala o óbvio.
- Fracamente, você pode mais, qualquer um pode mais do que retratar tudo isso. Quero te ver chocando com ódio pela vida de um bebê que nasce, infelicidade piegas diante a um namoro comum, alegria pela morte de um marido carinhoso. De que realidade me interessa se deus já cuidou para nos dar olhos. Até amor me é mais interessante do que isso aí. Que amor te deixa louco e exagerado. Francamente. Sofrer por coisas sofríveis é normal demais para ser tão descrito. Apenas pare de
terça-feira, 25 de junho de 2013
domingo, 23 de junho de 2013
Carta a nós
Querida menina forte, por que faz isso com o meu coração?
Não sei se tenho muito pra dizer, na verdade, não sei se vai sair mais que "o que você está fazendo aí com esse rapaz?". Não que eu seja ciumento, longe disso, eu só não te quero com um outro garoto que eu sei que nem presta atenção nos seus olhos lindos, ou nas suas fotos maravilhosas.
Sabe menina, você deveria me ouvir mais vezes e começar a parar de preguiça, ainda mais essa sua tal preguiça de amor.
Isso que era para ser uma carta, agora só me parece várias frases juntas, todas elas te pedindo para por favor ficar em minha vida.
Não sei se é amor, paixão, ou só loucura, mas o que eu realmente quero é que a gente more em um apartamentinho apertado, com rosas plantadas na janela, com um sofá de estampa de liberty e almofadas vermelhas. E com você, de cabelos desgranhados, com uma blusa minha, de calcinha e meias. Jogada no sofá e vendo um filme de Almodóvar, enquanto te preparo um café forte.
Não quero chegar aqui e te escrever uma poção de sinônimos difíceis para amor, ou para suas características, nem pro seu sorriso maravilhoso. Eu quero mesmo é passar essas palavras direto para o seu coração e assim começo a desejar que me olhe e diga "nossa, mas eu quero que esse moço traga os discos dele aqui pra casa, nós vamos ouvir Legião e Roberto a noite toda". Não que eu queira casamento oficial, mas morar contigo por uns meses, ou anos, seria incrível.
Talvez eu nunca te entregue esta carta. Talvez eu nunca tenha coragem de te falar nenhuma destas palavras. Mas talvez eu crie uma veia cavaleira e resolva roubar/salvar seu coração para mim. Ou então eu me torne o rapaz que você deseja que eu seja, só para que você me namore de longe exatamente como eu te namoro.
Imagina moça, eu passando no meio de uma multidão que está assistindo uma apresentação qualquer, só pra ir lá no palco pegar brinde, agora eu começo a te imaginar olhando para mim como eu olho para você, me admirando, querendo saber dos meus jeitos, querendo me conhecer melhor que eu mesmo.
Eu quero ser velhinho e completar suas frases, mesmo as que você nunca tinha dito antes. Eu quero ser avô de seus netos e quero que você conte histórias lindas que vivemos quando fomos para a França, para Inglaterra, pro Japão, para todos os lugares. Enquanto conta tudo isso para os netos, estarei preparando um bolo, com aquela receita que pegamos na Itália. Eles sentados no chão e você alisando um gato que adotamos, na cadeira de balanço que compramos na Índia.
Ou a gente pode não ir para lugar nenhum e ficamos abraçadinhos na cama que papai me deu. Tanto faz, moça. Tanto faz todo o resto, basta ter a gente e depois os meninos, mais tarde as crianças e depois de tudo a gente morre junto, na cama. Dormindo, ou fazendo amor. Tanto faz mesmo moça.
Agora tome esse café e me chame para sair.
Com amor... Você sabe.
Ps.: Será que um dia você lerá isso tudo?
Não sei se tenho muito pra dizer, na verdade, não sei se vai sair mais que "o que você está fazendo aí com esse rapaz?". Não que eu seja ciumento, longe disso, eu só não te quero com um outro garoto que eu sei que nem presta atenção nos seus olhos lindos, ou nas suas fotos maravilhosas.
Sabe menina, você deveria me ouvir mais vezes e começar a parar de preguiça, ainda mais essa sua tal preguiça de amor.
Isso que era para ser uma carta, agora só me parece várias frases juntas, todas elas te pedindo para por favor ficar em minha vida.
Não sei se é amor, paixão, ou só loucura, mas o que eu realmente quero é que a gente more em um apartamentinho apertado, com rosas plantadas na janela, com um sofá de estampa de liberty e almofadas vermelhas. E com você, de cabelos desgranhados, com uma blusa minha, de calcinha e meias. Jogada no sofá e vendo um filme de Almodóvar, enquanto te preparo um café forte.
Não quero chegar aqui e te escrever uma poção de sinônimos difíceis para amor, ou para suas características, nem pro seu sorriso maravilhoso. Eu quero mesmo é passar essas palavras direto para o seu coração e assim começo a desejar que me olhe e diga "nossa, mas eu quero que esse moço traga os discos dele aqui pra casa, nós vamos ouvir Legião e Roberto a noite toda". Não que eu queira casamento oficial, mas morar contigo por uns meses, ou anos, seria incrível.
Talvez eu nunca te entregue esta carta. Talvez eu nunca tenha coragem de te falar nenhuma destas palavras. Mas talvez eu crie uma veia cavaleira e resolva roubar/salvar seu coração para mim. Ou então eu me torne o rapaz que você deseja que eu seja, só para que você me namore de longe exatamente como eu te namoro.
Imagina moça, eu passando no meio de uma multidão que está assistindo uma apresentação qualquer, só pra ir lá no palco pegar brinde, agora eu começo a te imaginar olhando para mim como eu olho para você, me admirando, querendo saber dos meus jeitos, querendo me conhecer melhor que eu mesmo.
Eu quero ser velhinho e completar suas frases, mesmo as que você nunca tinha dito antes. Eu quero ser avô de seus netos e quero que você conte histórias lindas que vivemos quando fomos para a França, para Inglaterra, pro Japão, para todos os lugares. Enquanto conta tudo isso para os netos, estarei preparando um bolo, com aquela receita que pegamos na Itália. Eles sentados no chão e você alisando um gato que adotamos, na cadeira de balanço que compramos na Índia.
Ou a gente pode não ir para lugar nenhum e ficamos abraçadinhos na cama que papai me deu. Tanto faz, moça. Tanto faz todo o resto, basta ter a gente e depois os meninos, mais tarde as crianças e depois de tudo a gente morre junto, na cama. Dormindo, ou fazendo amor. Tanto faz mesmo moça.
Agora tome esse café e me chame para sair.
Com amor... Você sabe.
Ps.: Será que um dia você lerá isso tudo?
quarta-feira, 8 de maio de 2013
Margens
Dois homens sozinhos, presos na imensidão de um copo só.
Um copo pela metade para o vazio de um corpo lotado com duas pessoas.
"Shiu..." Metade de sua alma clamava pelo silêncio absoluto. Outra parte queria o carnaval em orgia dentro de seu quarto. Desejos extremamente opostos costumavam atordoa-los. "afinal, quem sou eu? Que desejo é o maior?'
Um se comunicava com o outro por escritos pela casa. "Difícil é sentir-se sozinho mesmo morando com um outro alguém".
"Precisamos nos encontrar, precisamos decidir".
Como? Como duas pessoas podem ocupar o mesmo espaço?
Respostas complexas eram presenteadas quando a embriaguez roubava metade de cada um e formava um terceiro que trazia harmonia. Metade perdida se encontrou com outra parte.
"Você não se parece comigo". Suas percepções de aparência física eram diversas.
"O que vamos fazer?"
Um dos dois precisava morrer para que o outro pudesse finalmente viver. Mas como decidir quem é o protagonista daquele corpo?
A metade mais ébria decidiu em uma epifania que era sua vez de deixar de super lotar um corpo que só cabia sua metade.
O silêncio pairou em casa. Não acordava mais com desconhecidas o chamando de amor. Não se irritava mais com móveis fora do lugar. O gelo sobrava. Ninguém mais arrumava a cama. Recados grosseiros não apareciam mais em lugares estranhos. Riu ao lembrar-se destes recados.
Como a loucura da multidão pode ser harmônica? Qual a lógica de achar paz na presença-ausente de um grande bagunceiro que lhe deixava rastros de sua personalidade controversa. Personalidade que matou.
- agora como sei que não matei parte de mim mesmo?
Escondido no papelão do rolo do papel higiênico achou o último recado:
"Queremos ser 5, mas somos 2+3, matando o 2 não se forma 5."
Um copo pela metade para o vazio de um corpo lotado com duas pessoas.
"Shiu..." Metade de sua alma clamava pelo silêncio absoluto. Outra parte queria o carnaval em orgia dentro de seu quarto. Desejos extremamente opostos costumavam atordoa-los. "afinal, quem sou eu? Que desejo é o maior?'
Um se comunicava com o outro por escritos pela casa. "Difícil é sentir-se sozinho mesmo morando com um outro alguém".
"Precisamos nos encontrar, precisamos decidir".
Como? Como duas pessoas podem ocupar o mesmo espaço?
Respostas complexas eram presenteadas quando a embriaguez roubava metade de cada um e formava um terceiro que trazia harmonia. Metade perdida se encontrou com outra parte.
"Você não se parece comigo". Suas percepções de aparência física eram diversas.
"O que vamos fazer?"
Um dos dois precisava morrer para que o outro pudesse finalmente viver. Mas como decidir quem é o protagonista daquele corpo?
A metade mais ébria decidiu em uma epifania que era sua vez de deixar de super lotar um corpo que só cabia sua metade.
O silêncio pairou em casa. Não acordava mais com desconhecidas o chamando de amor. Não se irritava mais com móveis fora do lugar. O gelo sobrava. Ninguém mais arrumava a cama. Recados grosseiros não apareciam mais em lugares estranhos. Riu ao lembrar-se destes recados.
Como a loucura da multidão pode ser harmônica? Qual a lógica de achar paz na presença-ausente de um grande bagunceiro que lhe deixava rastros de sua personalidade controversa. Personalidade que matou.
- agora como sei que não matei parte de mim mesmo?
Escondido no papelão do rolo do papel higiênico achou o último recado:
"Queremos ser 5, mas somos 2+3, matando o 2 não se forma 5."
quarta-feira, 3 de abril de 2013
No quanto do quarto: Shiu! Ela ainda pode voltar
I-
João era um bonito rapaz. Louro de cabelos escorridos até os ombros, olhos azuis, ombros largos e um corpo bem dividido como presente de um ótimo DNA. João poderia ser modelo de passarelas, João poderia ser modelo fotográfico, João poderia ser modelo de um escultor. João poderia ser o modelo de Da Vinci para "O homem vitruviano".
Seu sentimento a respeito da sociedade humana era semelhante a de uma criança diante a um prato de jiló.
João não gostava de ser visto, ou admirado por uma bandeja de jiló. Os mais belos e formosos jilós do mundo tinham desejo e atração por sua aparência, mas detestavam sua grosseria e prepotência.
Certa vez, uma bela garota se bateu de ombro com João. Diferentemente das outras pessoas, ela não pediu desculpas, ou o paquerou... apenas sussurrou alguns palavrões e continuou apressada. Essa criatura foi promovida a um belo e nojento brócolis.
II-
Abriu seus olhos de manhã como em um susto. Mas só porque achava divertido pensar que era um vilão "revivendo" no final de um filme de terror. Sentou-se e fez piada agradecendo a um deus que não acreditava por mais um dia de sofrimento das pessoas em que não se importava.
- Obrigado maravilhoso deus, por mais um ótimo dia de desgraça para a maioria das pessoas do planeta.- olhou no espelho e riu satisfeito com o que era refletido.
Foi até a cozinha, pegou um pedaço de bolo de chocolate e ia fugindo devagarinho pela porta dos fundos.
- Beijo!- sua mãe sem expressão cochichou cansada daquela rotina.
João não tinha cansado de brigar em casa, nem de xingar a mãe, ou o pai. João não se importava em fazer a mãe chorar por um beijo no qual ele não daria. Mas sem beijo não havia comida em casa, não havia bolo de chocolate no café da manhã.
Sem Aquele beijo sua mãe mudava suas roupas de lugar, não lavava as cuecas... só para não permitir a rotina, só porque ele gostava. Tudo que queria era um beijo e ela aprendera a usar a chantagem para conseguir. Era quase como vingança.
João lentamente se aproximou da mãe e tocou seus lábios na testa suada e nojenta de quem tinha acordado cedo para colocar o bolo no forno. Sentiu em seus lábios milhares de pequenas agulhas e os contraiu com força, tentando não expressar a dor em seu rosto. Apenas para o bolo de amanhã ser mais fofinho.
Então, era a vez de ser beijado. Olhou com raiva para aquela loura de cabelos desgrenhados esperando por aqueles lábios quebradiços e hálito de morte, ou catarro.
Quando sua mãe estala a boca na bochecha, serrou os dentes e apertou os olhos. Era como bater o dedo mindinho do pé em uma bigorna de desenho animado. Essa dor se espalhava pelo corpo a cada minuto em que sua boca tocava a bochecha de João, que logo que pôde, correu para porta.
Caminhava pela cidade olhando para cada cidadão e listando mentalmente seus defeitos. Andava até achar a paisagem mais próxima e desconhecida.
Sentou-se então em um porto fedido a peixe e viu um jovem senhor descarregando camarão de seu barco:
"- fedido
- pobre
- nariz grande demais
- careca
- sem talento
- burro..."
- Posso? - olhou para lado e uma garota parecia pedir para sentar-se a seu lado.
- Não! - isso costumava bastar, mas ela não esperou a resposta para juntar-se a ele.
- Eu sou Fernanda.
"- Voz enjoada
- Voz baixa
- Perfume doce
- Pouco perfume
- Bonita
- Discreta..."
- Já são 9h? - Fernanda agarrou seu braço para olhar as horas no relógio.
João sentiu os pelos de sua coxa subirem como "ola" dos torcedores de futebol. Sua genital passou a chamar sua atenção, os seus braços ficaram moles. Apoiou sua cabeça para trás e sentiu-se arrepiar como um beijo na nuca.
Pela primeira vez.
João era um bonito rapaz. Louro de cabelos escorridos até os ombros, olhos azuis, ombros largos e um corpo bem dividido como presente de um ótimo DNA. João poderia ser modelo de passarelas, João poderia ser modelo fotográfico, João poderia ser modelo de um escultor. João poderia ser o modelo de Da Vinci para "O homem vitruviano".
Seu sentimento a respeito da sociedade humana era semelhante a de uma criança diante a um prato de jiló.
João não gostava de ser visto, ou admirado por uma bandeja de jiló. Os mais belos e formosos jilós do mundo tinham desejo e atração por sua aparência, mas detestavam sua grosseria e prepotência.
Certa vez, uma bela garota se bateu de ombro com João. Diferentemente das outras pessoas, ela não pediu desculpas, ou o paquerou... apenas sussurrou alguns palavrões e continuou apressada. Essa criatura foi promovida a um belo e nojento brócolis.
II-
Abriu seus olhos de manhã como em um susto. Mas só porque achava divertido pensar que era um vilão "revivendo" no final de um filme de terror. Sentou-se e fez piada agradecendo a um deus que não acreditava por mais um dia de sofrimento das pessoas em que não se importava.
- Obrigado maravilhoso deus, por mais um ótimo dia de desgraça para a maioria das pessoas do planeta.- olhou no espelho e riu satisfeito com o que era refletido.
Foi até a cozinha, pegou um pedaço de bolo de chocolate e ia fugindo devagarinho pela porta dos fundos.
- Beijo!- sua mãe sem expressão cochichou cansada daquela rotina.
João não tinha cansado de brigar em casa, nem de xingar a mãe, ou o pai. João não se importava em fazer a mãe chorar por um beijo no qual ele não daria. Mas sem beijo não havia comida em casa, não havia bolo de chocolate no café da manhã.
Sem Aquele beijo sua mãe mudava suas roupas de lugar, não lavava as cuecas... só para não permitir a rotina, só porque ele gostava. Tudo que queria era um beijo e ela aprendera a usar a chantagem para conseguir. Era quase como vingança.
João lentamente se aproximou da mãe e tocou seus lábios na testa suada e nojenta de quem tinha acordado cedo para colocar o bolo no forno. Sentiu em seus lábios milhares de pequenas agulhas e os contraiu com força, tentando não expressar a dor em seu rosto. Apenas para o bolo de amanhã ser mais fofinho.
Então, era a vez de ser beijado. Olhou com raiva para aquela loura de cabelos desgrenhados esperando por aqueles lábios quebradiços e hálito de morte, ou catarro.
Quando sua mãe estala a boca na bochecha, serrou os dentes e apertou os olhos. Era como bater o dedo mindinho do pé em uma bigorna de desenho animado. Essa dor se espalhava pelo corpo a cada minuto em que sua boca tocava a bochecha de João, que logo que pôde, correu para porta.
Caminhava pela cidade olhando para cada cidadão e listando mentalmente seus defeitos. Andava até achar a paisagem mais próxima e desconhecida.
Sentou-se então em um porto fedido a peixe e viu um jovem senhor descarregando camarão de seu barco:
"- fedido
- pobre
- nariz grande demais
- careca
- sem talento
- burro..."
- Posso? - olhou para lado e uma garota parecia pedir para sentar-se a seu lado.
- Não! - isso costumava bastar, mas ela não esperou a resposta para juntar-se a ele.
- Eu sou Fernanda.
"- Voz enjoada
- Voz baixa
- Perfume doce
- Pouco perfume
- Bonita
- Discreta..."
- Já são 9h? - Fernanda agarrou seu braço para olhar as horas no relógio.
João sentiu os pelos de sua coxa subirem como "ola" dos torcedores de futebol. Sua genital passou a chamar sua atenção, os seus braços ficaram moles. Apoiou sua cabeça para trás e sentiu-se arrepiar como um beijo na nuca.
Pela primeira vez.
sábado, 16 de março de 2013
segunda-feira, 4 de março de 2013
3 segundos.
I-
Lentamente Marcos foi recuperando a consciência. Primeiro sentiu o cheio podre de meias velhas e sujas jogadas em algum canto do quarto. Em seguida tentou ouvir algum som, para adivinhar que dia da semana estava. Motos, buzinas, palavrões... Segunda-feira! De vagar foi abrindo os olhos e começou a sentir sua cabeça pesar, seu corpo doer, sua voz falhar. Gripe é uma merda.
Tudo estava nos conformes. Pizza velha jogada pelos cantos da casa. Garrafas de cerveja barata rolando pelo chão. Televisão ligada em um programa de auditório com uma puta loura falando merda sobre atores fodidos e com dinheiro até a goela.
Desligou sua televisão antiga que foi escurecendo nas bordas até o centro.
Rádio.
-Nossa, nossa, assim você me mata...
-Música fodida, bando de arrombado! - balbuciava palavrões com tanta naturalidade que eram apenas palavras normais.
Arrancou da tomada seu aparelho de som e o jogou na parede. Soltou um riso sádico e começou a catar toda sua sujeira aos gritos que eram quase que semelhantes a 5ª sinfonia de Beethoven.
II-
No meio de um sonho muito confortável o som alto do meu celular tocava Alala-Cansei de ser sexy
Era da editora e tinha certeza que aos berros, o editor chefe iria me cobrar mais um capítulo do meu livro.
- Alô, bom dia! - tentei ser cordial, estava errado mesmo.
- Claro, claro... ótimo dia! Meu dia está maravilhoso porque tenho certeza que agora mesmo vou atualizar a página do meu e-mail e terá não um, mas dois capítulos do meu livro. - "meu livro", eu faço todo o trabalho e o livro é dele.
- Bem, sobre isso, Marcus... eu não escrevi ainda, mas juro que até o final da semana eu te entrego os dois capítulos.
- ATÉ O FINAL DA SEMANA? VOCÊ QUER ME FODER? - desliguei o telefone e sabia que as consequências viriam.
Sentei-me na cama e levantei os braços o máximo que pude. Ao colocar os pés no chão senti o frio como um choque e procurei minhas pantufas.
Já animado para minha busca por inspiração andei até a cozinha para tomar uma tigela de cereal.
"Quanto tempo é necessário para mudar sua vida?" Eram essas as palavras escritas em tinta vermelha-sangue na minha parece branca. "Ligue 9856-2569".
Sentado no balcão de minha cozinha olhava aquelas palavras enquanto segurava o meu telefone já com o número discado e medo de ameaças.
Ligo?
I-
"Ligue 9856-2569".
- Marcos, você tem múltipla personalidade.
Lentamente Marcos foi recuperando a consciência. Primeiro sentiu o cheio podre de meias velhas e sujas jogadas em algum canto do quarto. Em seguida tentou ouvir algum som, para adivinhar que dia da semana estava. Motos, buzinas, palavrões... Segunda-feira! De vagar foi abrindo os olhos e começou a sentir sua cabeça pesar, seu corpo doer, sua voz falhar. Gripe é uma merda.
Tudo estava nos conformes. Pizza velha jogada pelos cantos da casa. Garrafas de cerveja barata rolando pelo chão. Televisão ligada em um programa de auditório com uma puta loura falando merda sobre atores fodidos e com dinheiro até a goela.
Desligou sua televisão antiga que foi escurecendo nas bordas até o centro.
Rádio.
-Nossa, nossa, assim você me mata...
-Música fodida, bando de arrombado! - balbuciava palavrões com tanta naturalidade que eram apenas palavras normais.
Arrancou da tomada seu aparelho de som e o jogou na parede. Soltou um riso sádico e começou a catar toda sua sujeira aos gritos que eram quase que semelhantes a 5ª sinfonia de Beethoven.
II-
No meio de um sonho muito confortável o som alto do meu celular tocava Alala-Cansei de ser sexy
Era da editora e tinha certeza que aos berros, o editor chefe iria me cobrar mais um capítulo do meu livro.
- Alô, bom dia! - tentei ser cordial, estava errado mesmo.
- Claro, claro... ótimo dia! Meu dia está maravilhoso porque tenho certeza que agora mesmo vou atualizar a página do meu e-mail e terá não um, mas dois capítulos do meu livro. - "meu livro", eu faço todo o trabalho e o livro é dele.
- Bem, sobre isso, Marcus... eu não escrevi ainda, mas juro que até o final da semana eu te entrego os dois capítulos.
- ATÉ O FINAL DA SEMANA? VOCÊ QUER ME FODER? - desliguei o telefone e sabia que as consequências viriam.
Sentei-me na cama e levantei os braços o máximo que pude. Ao colocar os pés no chão senti o frio como um choque e procurei minhas pantufas.
Já animado para minha busca por inspiração andei até a cozinha para tomar uma tigela de cereal.
"Quanto tempo é necessário para mudar sua vida?" Eram essas as palavras escritas em tinta vermelha-sangue na minha parece branca. "Ligue 9856-2569".
Sentado no balcão de minha cozinha olhava aquelas palavras enquanto segurava o meu telefone já com o número discado e medo de ameaças.
Ligo?
I-
"Ligue 9856-2569".
- Marcos, você tem múltipla personalidade.
domingo, 10 de fevereiro de 2013
Morrer não dói?
Quanto sangue ainda podia faltar para que toda aquela união de órgãos morresse?
Mas ainda estava lá, caminhando. Viva. Estava sozinha? Esta dúvida era cortante.
Continuava a andar. As pedras úmidas formavam um eco a sua volta. Suas cordas vocais já não aguentavam mais:
- Olá?
- Olá? Olá? Olá? – Essas repetições lhe davam esperanças.
Estava sozinha! Agora era uma certeza.
- Eu nunca tive essa dádiva da fé – falava em voz alta para fingir uma companhia e não enlouquecer. – Acho que o mundo sempre foi muito honesto comigo. Honesto, não justo.
- É difícil acreditar, mas perto de tudo que passei certamente o diabo sente-se orgulhoso...
- E o que eu já te fiz de tão ruim? – Foi interrompida por uma voz.
Lá estava um rapaz louro e de olhos azuis, com um risinho irônico e uma beca alva.
- Quem é você? O diabo? Temos assuntos pendentes.
- Refresque-me a memória... Quem sabe de tudo é “Deus” – falou fazendo aspas no ar – eu sou imperfeito – porém, sem sombra de dúvidas, detentor de uma beleza inigualável.
- HAHAHA “Vou te fatiar para que fique irreconhecível até aos olhos de sua própria mãe”, foi isso que consegui ouvir de um guarda referindo-se ao meu irmão. Depois destas excitantes palavras o meu corpo foi invadido por aquele gordo. Isso aconteceu bem em cima das vísceras dos meus parentes. Logo depois fui descartada, pois sou “um excremento”. Esse tipo de coisa não faz uma jovem garota crer em um deus, nem que seja para xinga-lo.
- Pelo que eu já vi e passei – continuou de forma tão indiferente que nem parecia que tudo aquilo era tão recente – sei que independente do que eu fizer e do que você faça comigo, já fizeram pior.
- Você conhece a bíblia? Todos aqueles milagres eu fiz. Os homens não mentiram a respeito de nada. Eu que menti. Eu sou o Deus de todos vocês, mas não tenho ideia de como vim parar aqui e nem porque sou eu. Sou imoral e imortal. Eu os fiz porque descobri que posso criar. Eu os mato para ficar sempre no poder. Acho gostoso ser bajulado como um deus, mas meu tesão é os destruir. Ah, como vocês são uns doces – suspirou com uma expressão sádica no rosto.
Com uma simples piscadela a garota começou a agonizar de forma exacerbada, sem uma simples explicação. Agonizou até finalmente ter espasmo.
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