segunda-feira, 4 de março de 2013

3 segundos.

I-
Lentamente Marcos foi recuperando a consciência. Primeiro sentiu o cheio podre de meias velhas e sujas jogadas em algum canto do quarto. Em seguida tentou ouvir algum som, para adivinhar que dia da semana estava. Motos, buzinas, palavrões... Segunda-feira! De vagar foi abrindo os olhos e começou a sentir sua cabeça pesar, seu corpo doer, sua voz falhar. Gripe é uma merda.
Tudo estava nos conformes. Pizza velha jogada pelos cantos da casa. Garrafas de cerveja barata rolando pelo chão. Televisão ligada em um programa de auditório com uma puta loura falando merda sobre atores fodidos e com dinheiro até a goela.
Desligou sua televisão antiga que foi escurecendo nas bordas até o centro.
Rádio.
-Nossa, nossa, assim você me mata...
-Música fodida, bando de arrombado! - balbuciava palavrões com tanta naturalidade que eram apenas palavras normais.
Arrancou da tomada seu aparelho de som e o jogou na parede. Soltou um riso sádico e começou a catar toda sua sujeira aos gritos que eram quase que semelhantes a 5ª sinfonia de Beethoven.

II-
No meio de um sonho muito confortável o som alto do meu celular tocava Alala-Cansei de ser sexy
Era da editora e tinha certeza que aos berros, o editor chefe iria me cobrar mais um capítulo do meu livro.
- Alô, bom dia! - tentei ser cordial, estava errado mesmo.
- Claro, claro... ótimo dia! Meu dia está maravilhoso porque tenho certeza que agora mesmo vou atualizar a página do meu e-mail e terá não um, mas dois capítulos do meu livro. - "meu livro", eu faço todo o trabalho e o livro é dele.
- Bem, sobre isso, Marcus... eu não escrevi ainda, mas juro que até o final da semana eu te entrego os dois capítulos.
- ATÉ O FINAL DA SEMANA? VOCÊ QUER ME FODER? - desliguei o telefone e sabia que as consequências viriam.
Sentei-me na cama e levantei os braços o máximo que pude. Ao colocar os pés no chão senti o frio como um choque e procurei minhas pantufas.
Já animado para minha busca por inspiração andei até a cozinha para tomar uma tigela de cereal.
"Quanto tempo é necessário para mudar sua vida?" Eram essas as palavras escritas em tinta vermelha-sangue na minha parece branca. "Ligue 9856-2569".
Sentado no balcão de minha cozinha olhava aquelas palavras enquanto segurava o meu telefone já com o número discado e medo de ameaças.
Ligo?

I-
"Ligue 9856-2569".
- Marcos, você tem múltipla personalidade.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Morrer não dói?

Quanto sangue ainda podia faltar para que toda aquela união de órgãos morresse?

Mas ainda estava lá, caminhando. Viva. Estava sozinha? Esta dúvida era cortante.
Continuava a andar. As pedras úmidas formavam um eco a sua volta. Suas cordas vocais já não aguentavam mais:
 - Olá?
- Olá? Olá? Olá? – Essas repetições lhe davam esperanças.
Estava sozinha! Agora era uma certeza.
- Eu nunca tive essa dádiva da fé – falava em voz alta para fingir uma companhia e não enlouquecer. – Acho que o mundo sempre foi muito honesto comigo. Honesto, não justo.
 - É difícil acreditar, mas perto de tudo que passei certamente o diabo sente-se orgulhoso...
- E o que eu já te fiz de tão ruim? – Foi interrompida por uma voz.
Lá estava um rapaz louro e de olhos azuis, com um risinho irônico e uma beca alva.
- Quem é você? O diabo? Temos assuntos pendentes.
- Refresque-me a memória... Quem sabe de tudo é “Deus” – falou fazendo aspas no ar – eu sou imperfeito – porém, sem sombra de dúvidas, detentor de uma beleza inigualável.
- HAHAHA “Vou te fatiar para que fique irreconhecível até aos olhos de sua própria mãe”, foi isso que consegui ouvir de um guarda referindo-se ao meu irmão. Depois destas excitantes palavras o meu corpo foi invadido por aquele gordo. Isso aconteceu bem em cima das vísceras dos meus parentes.  Logo depois fui descartada, pois sou “um excremento”. Esse tipo de coisa não faz uma jovem garota crer em um deus, nem que seja para xinga-lo.
- Pelo que eu já vi e passei – continuou de forma tão indiferente que nem parecia que tudo aquilo era tão recente – sei que independente do que eu fizer e do que você faça comigo, já fizeram pior.
 - Você conhece a bíblia?  Todos aqueles milagres eu fiz. Os homens não mentiram a respeito de nada. Eu que menti. Eu sou o Deus de todos vocês, mas não tenho ideia de como vim parar aqui e nem porque sou eu. Sou imoral e imortal. Eu os fiz porque descobri que posso criar. Eu os mato para ficar sempre no poder. Acho gostoso ser bajulado como um deus, mas meu tesão é os destruir. Ah, como vocês são uns doces – suspirou com uma expressão sádica no rosto.
Com uma simples piscadela a garota começou a agonizar de forma exacerbada, sem uma simples explicação. Agonizou até finalmente ter espasmo.  

sábado, 2 de fevereiro de 2013


 Seus olhos queimavam em lágrimas quentes. O desespero rasgava sua garganta com ruídos que suas cordas vocais desconheciam.
 Em suas vistas estava novamente aquela imagem. Aquela menina. Uma criança sorridente e bem penteada, de vestido branco que a cobria até os joelhos. Branca como um fantasma, cabelos louros presos em uma presilha de libélula.  
 De repente, em um piscar de olhos, a linda menina se transformava em partes separadas de um corpo humano, partes que nem pareciam um dia ter pertencido a alguém. Era só um amontoado de carne com um rosto sorridente em seu pico. Como uma estrela no topo da árvore de natal. 
 Tentava se esconder daquela visão, mas aquele riso a perseguia, a vozinha aguda e sinceramente animada gritava em seus ouvidos como uma criança mimada: "HA-HA-HA".
 - PARE! PARE! - Arrancava cabelos tentando estancar as risadas. "HA-HA-HA". - POR FAVOR, EU FAÇO QUALQUER COISA!
 "Você sabe o que me faz feliz, irmãzinha". 
 E lá estavam os "remédios". Só assim sumia aquele corpo dilacerado e voltava à temporária calmaria de se sentir seguida todo o tempo por uma criança no qual nunca tinha visto, mas insistia em te chamar de irmã.
 - Eu não tenho irmã, eu não tenho mais irmã – se balançava de forma rápida enquanto sussurrava pensamentos para convencer o cérebro.
 Ela voltou.

 Mesmo depois de claras pistas de que sua única filha estava usando drogas, apenas ao encontra-la na rua, jogada aos mendigos canibais, quando dizia dormir na casa de uma amiga, foi que uma rica e ocupada empresária percebeu que tinham um problema.


- Eu tenho pai, mãe, irmã... Uma menininha linda de 9 anos. - ela viu diante dos seus olhos a imagem daquela bonequinha loura que tinha como irmã e deu um sorriso curto e tímido - Tenho amigos e amigas, comida, diversão, dinheiro... Eu tenho tudo que preciso, mas a única coisa que me mantêm viva são as agulhas.
 Respirou fundo e buscou dentro de seu espírito forças para continuar falando aquelas palavras sinceras e tão pessoais. Não era fácil.
 - Na verdade isso é mentira... Acho que é porque eu aprendi a mentir para me proteger da proteção dos meus pais e me entregar a uma vida em busca da morte. Eu não uso só heroína, na verdade eu usava o que tinha para me tirar da minha vida perfeitinha... 
 Ela suspirou forte e virou os olhos. Tinha certeza que ninguém entendia o que poderia levar "uma garota tão inteligente, bonita e de boa família" a fazer aquelas coisas que ela tinha feito.
 - Sei que minha vida sempre foi boa e que vivia em boa escola com boas pessoas, mas não foi má influência que me fez começar a usar essas coisas. Na verdade eu só queria um pouco mais de ação, mais vida, um pouco mais do que computador, celular e televisão. Eu queria sorrir de verdade e viver aventuras. Estou presa em uma desventura. 
 - Socorro.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Na hora era entre estancar a dor ou a alma


Sentia-se fraca demais. Patética, jogada no chão e chorando daquele jeito.
Tirou a mão que estava na altura do diafragma e viu seu sangue escorrer pelos dedos.
 "Levei um tiro", pensou de repente "mas por quê?" Não doía, na verdade era uma quentura gostosa que a invadia o corpo. "Caralho, que sede".
 - Á-água - gaguejou.
 Estranhos a sua volta ficavam gritando coisas sem sentido algum. Ela podia vê-los balbuciando e ouvir os sons de suas bocas, mas não conseguia compreende-los.
 - Á-água - tentou novamente. Sem sucesso.
 "Água! Por que meu corpo não me acompanha? É simples dizer 'eu quero água'". Impressão minha minha ou as pessoas estão em uma coloração diferente? Calma! Não fechem olhos..."
 - Ei, ei, fique acordada...
 As vozes estavam mais baixas. "Eu to com sono, não estou morren... CALMA! NÃO POSSO DORMIR!" Tentava lutar contra as pálpebras pesadas. "Esses filhos da puta não podem me dar um copo d'água?"
 Viu de longe uma sirene se aproximando e seu barulho a feria os tímpanos.
 - Aguente só mais um

sábado, 19 de janeiro de 2013

Solidão a dois

E lá estava. Rodeada de lágrimas de chuva.
Sabia que o tempo estava perfeito para ver um filme agarradinha com o namorado. Ou um romance pra chorar sozinha. Ou uma comédia romântica com a melhor amiga.
O céu estava branco de nuvens. Nuvens tristes: sem cavalos, ou rostos. Apenas o branco do céu.
Um sorriso surgia em sua boca. A sensação de solidão que nascia nas bordas de sua língua e escorregava até a ponta trazia um sabor adocicado.

Sabia que a solidão era uma coisa ruim e que todas as pessoas estavam a procura de alguém para envelhecer. Como podiam? Talvez fosse um pouco autista. Talvez as piadas que não foram ditas fossem mais engraçadas. Talvez fosse só a saudade daquele velho amor.
"Difícil é esquecer quando o mundo foi feito de ti". Ligou certa noite para dizer-lhe essas palavras, mas a vida não é um sonho... a ligação estava cortando e ele ficava repetindo "O que? O que?". Perdeu a magia, desligou.

Pensava em chegar em casa e ter apenas um prato para colocar na mesa e resolver comer em pé do lado da pia. E no silêncio que vai estar. Em trancar o portão porque sabe que mais ninguém vai chegar. Sentar sozinha no sofá. Sem conversar. Sem nem falar. Nem aquele silêncio gostoso quando estão lendo juntos. Nada disso.De repente ficou ansiosa para viver isso tudo. Pensou em dançar sozinha de calcinha na cozinha. Transformar o silêncio na voz de Freddie Mercury e entender exatamente o que ele quer dizer com "I want to break free". Suspirou. Que solidão gostosa.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Ana

 As pernas frágeis e trêmulas andavam em direção ao túmulo. "Ana deixou apaixonados, viúvos e a vida". Que lápide ridícula. Tentavam poetizar aquilo, mas era um lixo.
 Olhou fixa para aquelas palavras: "Ana deixou". Aquela não era a Ana que conhecia, aquilo não estava certo, não podia. Ana não abandonava. 
 Seu corpo magro já era tão fraco quanto suas pernas, quanto seu coração. Caiu de joelhos na terra fofa que ainda era fria. Como o copo de Ana.
 Agora lembrava daquela festa que foram juntas e Ana se vestira de morta. Não, ela não tinha noção de como ficaria morta. 
 - Morta... Morta...
 Cada vez que pensava nesse termo lhe era mais forte, mais destrutivo. 
 - Morta
E a machucava mais.
 - Morta... Ah, Ana...- suspirou sem deixar escorrer nem uma unica lágrima. Nem quente, nem fria. - morta...
 Quantos dias mais teria que conviver com aquela dor? Lembrou-se de um trecho: "tudo que morre fica vivo na lembrança, como é difícil viver carregando um cemitério na cabeça". Horas se passaram e aqueles pensamentos a destroçava. Aquela ideia de nunca mais estarem juntas. Aquele tempo que não voltaria. Horas se passavam e parecia que cada segundo a mutilava.
 - Ah, Ana... - sentiu seu sangue quente subir para cabeça. Podia senti-lo sair pelos olhos.
 Altos ruídos de dor que juravam ser de um homem sendo degolado por uma faca cega lhe escaparam pela garganta.
 - Ah, minha filha, por que eu bebi?

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Pelas raízes das rochas

 As cores vibravam, quase gemiam diante tanta luz, tanto calor. Estão em contraste as lágrimas que escorrem dos olhos dela. Ela que me faz bem. Ela que eu amo.
 Chorava sem piscar os olhos. Em seu rosto o que aflorava era o desgosto, a decepção. Em sua boca, um riso sínico, um gosto de vingança.
 Antigos pensamentos martelando arrependimentos atuais.
 Vozes estranhas declarando pensamentos próprios.
 Ruídos altos demais passavam atrás de sua música.
 Confusão interna, pessoal demais para externalizar.
 O mundo está assim, as casas voam, livres; as pipas se plantificam.
 Adeus, menina... Adeus a nós que sangramos sua voz... TUM, TUM!